sábado, 8 de dezembro de 2018

O DIÁRIO DE STEVE ROGERS - Parte 3


- Captain America Comics 1 (Março de 1941)

Histórias:

"Soldier's Soup" - Ilustrada por Jack Kirby e Joe Simon

Os frios e cintilantes raios de uma lua outonal brilhavam sob uma vasta cidade de barracas. Os rapazes que serviam ao Tio Sam estavam dormindo. Sombras profundas e penetrantes caiam por todo lugar. Um silêncio irreal e assustador cobria a colina nevada como um medonho presságio das terríveis coisas por vir.

O recruta Rogers se remexia desconfortavelmente em sua cama. A mão dele mecanicamente deslizou para a cama ao seu lado, para reassegurá-lo que seu jovem admirador, Bucky, estava ali, em seu sono profundo. O soldado virou-se silenciosamente em seu leito, sorrindo ao lembrar que Bucky estava ali porque um bondoso coronel de um governo indulgente não poderia deixar uma lealdade como a de Bucky sem recompensa.

Com um sobressalto, Rogers sentou-se como um relâmpago. Ele sabia agora porque havia despertado: sentira falta dos passos firmes da sentinela. Ele ouviu - com todos os seus nervos tensos como a rede de uma raquete de tênis. Nenhum som veio a ele, somente a respiração estável de seu jovem parceiro. Convencido de que havia algum golpe em ação, ele pulou da sua cama.

Atrás de um grupo de arbustos, quase completamente oculto pelas sombras profundas, os afiados olhos de águia de Rogers caíram em cima do corpo tombado do sentinela - morto. Ele se ergueu sob seus 1,83 metros, com uma chama desafiante em seus olhos azuis, que juravam vingança implacável pelo assassinato de seu camarada caído. Ele então desapareceu para dentro da sua tenda. Num piscar de olhos, outra figura emergiu - era o mítico CAPITÃO AMÉRICA. Aquele cujos feitos eram saudados pelo exército, do escritório do ministério da defesa até o posto militar mais remoto nas fumegantes florestas das Filipinas. Ele permaneceu por um momento emoldurado contra o branco da tenda, uma resplandecente figura no seu colante uniforme de antigas glórias, os nervos ondulando por seus tremendamente poderosos músculos claramente visíveis sobre sua cobertura vermelha, azul e branca.

Duas sombrias figuras espreitavam pela grande área da cozinha, entre as enormes panelas que pareciam tambores monstruosos à primeira vista.

"Você bateu forte demais no vigia", sussurrou Furtivo, estreitando seu único olho afiadamente no seu parceiro. "Você não deveria tê-lo mat..."

"Pare de tagarelar", interromper nervosamente O Esmagador. "Se eu o matei, e daí”?”Quando nós temperarmos a sopa deles haverá um bocado de caras que irão se juntar a ele”. Ele gargarejou com uma meia risada e continuou: "É pra isso que servem os soldados, para morrerem - e eles morrerão!"

"É esse aqui!", anunciou Esmagador, quando ele puxou a enorme tampa de uma das panelas gigantes, e apontou sua lanterna para o amarronzado e grosso líquido em seu interior.

"Vai ser sopa" riu o vilão "e sopa será". Ele desparafusou a tampa de uma pequena garrafa, segurou sobre a panela, mas hesitou. Como se pronunciasse uma oração, ele zombou: "Como diz o executor para o cara na cadeira elétrica, antes de puxar a alavanca, 'desculpe, mas não é nada pessoal'".

Como um meteoro horizontal, o Capitão América pulou em cima dele. A garrafa com sua porção de conteúdo mortal resvalou inofensivamente para bem longe da grande panela. Com uma horrível e gutural imprecação, o Esmagador se recuperou da surpresa, e furtivamente rodeou o Capitão. Sua baixa, mas imensamente larga e grossa constituição não negaram seu apelido. Ele fez um rápido avanço em cima do soldado, mas seus poderosos braços apenas envolveram o ar vazio. O flexível e ágil homem facilmente se esquivou do desajeitado agarrão. Ao invés disso, o Capitão pôs-se nas costas do bandido que o teria esmagado como um touro. Porém, o Esmagador só ficou ali parado, balançando sua cabeça, e remexendo seus longos braços que pareciam mangueiras, como se fosse um grande urso cinzento.

Um berro estridente de Bucky, que deve ter seguido seu parceiro, foi o que avisou o Capitão América a tempo sobre o outro comparsa. Ele girou, esquivando-se, enquanto um punhal de aparência maligna passou assobiando por ele, seu movimento no ar claramente sendo audível aos seus supersensíveis ouvidos. Esta fração de segundos de guarda baixa era exatamente o que o gorila estivera esperando.

O Capitão América se sentiu como se fosse imprensado num tornilho. O Esmagador o entortou para trás e para frente, diabolicamente rindo diante de sua face assolada pela dor. A respiração do soldado estava interrompida - seus pulmões estavam inchados como se prestes a explodir - e o sangue pulsando nas suas orelhas como se ouvissem tiros de pistolas. O abraço do Esmagador se tornava cada vez mais apertado. Em desespero, o Capitão reuniu todo seu último fôlego num impulso, e cuspiu forte nos olhos do bandido. Irritado enquanto praguejava pela surpresa, o Esmagador afrouxou seus músculos por um momento. Coletando toda sua força num último esforço, o Capitão dobrou seu joelho direito contra o oponente, e rompeu o abraço mortal. Depois disso, as coisas aconteceram rapidamente.

Furtivo estava prestes a acertar a cabeça do Capitão novamente com o punhal, quando Bucky pulou de uma mesa direto pra cima do patife. Ambos se engolfaram num emaranhado de socos e pontapés, sonorizados por algumas imprecações vindas do Furtivo. O Capitão América deu dois fortes socos na mandíbula do Esmagador, e um terceiro, direto no nariz, enviou aquele dileto representante do submundo para a terra dos sonhos. Realmente lutando com um louco agora, o Capitão acertou Furtivo no seu único e lacrimejante olho bom, o nocauteando.

Os soldados entraram com algazarra na cozinha. Um deles achou ter visto a mítica indumentária do Capitão América desaparecer pela janela, mas seus camaradas o aconselharam a mudar de opinião.

Na manhã seguinte, os jornais carregavam uma manchete: "Sabotadores tentam envenenar um pelotão do exército inteiro".

O pelotão inteiro foi posto de prontidão. O coronel contara que o crime fora denunciado na noite anterior pelo sentinela que não tinha morrido como pensavam, mas apenas  ficara desacordado. Uma confissão foi arrancada de um dos dois assassinos, e a quadrilha inteira fora pega encarcerada. "E pensar", o coronel concluía suas palavras, "que é devido a inigualável bravura do Capitão América que todos nós devemos nossas vidas. E quem será esse herói desconhecido? Quem sabe ele talvez esteja bem aqui entre nós".

O coronel olhou afiadamente para o recruta Rogers. Ele podia jurar que havia visto o soldado dar uma piscadela para o pequeno Bucky. 

A+:

* Não se trata exatamente de uma história em quadrinhos, mas de um texto ilustrado. Quadrinhos, principalmente os que traziam aventuras "séries" em seu gênero, têm muito de suas origens na literatura pulp. Apesar de essa literatura ter um público mais amplo no que se refere a faixa etária, não é de se surpreender que o público dos quadrinhos (teoricamente crianças) também estivessem acostumados com essa forma de publicação. Portanto, aventuras em textos ilustrados não eram algo totalmente fora do contexto dentro de uma revista em quadrinhos.

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