sábado, 25 de agosto de 2018

GIBITECA ÂMAGO Parte 06: ACTION COMICS 01 (Junho de 1938) SUPERMAN



Após a saída de Malcolm Wheeler-Nicholson de sua empresa, a National Allied Publications, a mesma foi comprada em um leilão de falência e fundida com a recém-formada Detective Comics, Inc. (formada com o próprio Malcolm e Jack S Liebowitz, contador de seu credor), passando a se chamar National Comics Publications. Após incorporar seu próprio sistema de distribuição, passaria a ser conhecida como National Periodical Publications. Mas o próximo passo, já sem seu fundador, foi a criação da quarta revista do grupo, a Action Comics, que criou um arquétipo predominante até os dias de hoje nos quadrinhos: o gênero dos super-heróis, estreado pelo então novo personagem conhecido como... Superman. A importância desse evento editorial marca, inclusive, o início do que é conhecido como a Era de Ouro dos Quadrinhos.

Os criadores do Superman, os jovens Jerry Siegel e Joe Shuster, haviam concebido o personagem anos antes, sem sucesso em encontrar quem o publicasse. Porém, nesse período que antecede a Action Comics, o personagem conhecido como Superman era bem diferente do que conhecemos. Sequer era um herói. Careca, em um visual de cientista louco, com poderes mentais, adquiridos após um nefasto experimento, usados para o mal, Superman (aqui como um vadio conhecido como Bill Dunn) mais parecia com um Lex Luthor do que com um super-herói. Como não estava dando certo a publicação do personagem dessa forma, viraram o conceito do avesso e decidiram transformar Superman em uma força do bem ao invés de uma força do mal.

O novo material seria destinado (e assim foi produzido) para o formato de tiras de jornais. Chegaram muito perto de conseguir espaço para publicar o novo personagem, mas ou havia desinteresse por parte dos editores ou o simples acaso parecia conspirar para que o herói não viesse ao mundo. A editora Consolidated Book Publisher chegou a ser um desses espaços, não tivesse abandonado o mercado de quadrinhos devido ao pouco sucesso de sua única revista, Detective Dan. A péssima fase da dupla de criadores chegou ao ponto de quase findar com a amizade entre eles. Siegel julgava que o fato de serem tão jovens e desconhecidos era motivo para que não atraíssem um editor. Com isso, procurou outros parceiros como o desenhista Leo O'Meallia (que já conhecia alguns meios para publicar novas histórias em tiras de jornais... o que não vingou) e Russell Keaton (desenhista de Buck Rogers, que também tentou com outro sindicato de jornais... sem sucesso). Nesse ínterim, entre um desenhista e outro, Siegel começou a desenvolver detalhes do personagem para torná-lo mais aceitável. Mostrado como um homem do futuro, onde a humanidade tem superpoderes, foi nessa fase que desenvolveu suas capacidades, até chegar a mostrá-lo como um ser superpoderoso adotado e até mesmo a criar o nome Clark Kent.

Mas e Joe Shuster, seu notório amigo e parceiro desenhista? Como reagiu a essa "troca" na equipe criativa? Bom... se ele soubesse o que o amigo estava tentando... E pior que soube. E a amizade, nessa hora, se viu ameaçada. A "traição" causou a fúria de Shuster, que destruiu boa parte do material original de seu novo personagem. Bem... a amizade foi mantida e o plano desesperado de Siegel foi descartado, enfim. Ao fazerem as pazes, desenvolveram mais detalhes, como o fato do personagem ser um alienígena do planeta Krypton, um uniforme vistoso (apesar de bem primário e diferente do que conhecemos hoje) e o estranho triângulo amoroso entre Clark, Lois e o próprio Superman. Esse desenvolvimento também se deve a muito material que inspirou a dupla na criação do personagem. Temos então material como o personagem John Carter (de Edgar Rice Burroughs), a personalidade heroico-aventureira do ator Douglas Fairbanks (que interpretou ícones como Zorro - de onde surgiu a dupla personalidade - e Robin Hood), a cidade de Metropolis inspirada pelo filme de mesmo nome dirigido por Fritz Lang, o ar abobalhado do comediante Harold Lloyd para compor a personalidade igualmente (ou até mais) abobalhada de Clark Kent. O fato de o personagem ser um repórter veio de sonhos profissionais de Siegel e até mesmo o triângulo amoroso vem de sua vivência pessoal, já que, jovem, tinha lá seus "problemas" (timidez) junto às garotas. Visualmente, Shuster, que procurava material para desenvolver sua arte, acaba se tornando fã de fisiculturistas, o que o levou aqueles homens fortes que se apresentavam em circos, influenciando assim o visual do super-herói. Ainda tendo o circo como inspiração, ainda utilizou elementos que lembram aqueles "homens voadores" que se apresentavam ao público vestindo uma capa, antes do show. Há ainda toques futuristas de Flash Gordon. O semblante do personagem é um misto de Johnny Weissmuller (um dos mais notórios atores a interpretarem Tarzan) e Dick Tracy. O Planeta Diário não se chamava assim na primeira história, mas era Estrela Diária, referência ao jornal Toronto Daily Star, do qual os pais de Shuster eram assinantes e ele até trabalhou como entregador do mesmo. O fato de a dupla ter como ponto em comum serem filhos de imigrantes judeus também pode ser um ponto de influência na criação do personagem. Alguns estudiosos veem isso como uma alusão de um imigrante (alienígena) vindo de uma terra e cultura diferentes (Krypton) e tenta se encaixar em um novo mundo (Terra) e costumes ao qual quer se adaptar, ainda que prevaleça sua crença em seus bons princípios.

Siegel e Shuster começaram a produzir histórias para Malcolm Wheeler-Nicholson, mas não especificamente o seu Superman. Até chegaram a oferecer, mas a má fama empresarial do editor e... bem... os calotes em pagamentos que lhes eram devidos os fez recuar, limitando-se a continuar com os personagens que já estavam produzindo para ele anteriormente (entre eles, o Doutor Oculto). Afinal, naqueles tempos de crise, era melhor pingar do que faltar...

Como já haviam feito um trabalho satisfatório dentro da revista Detective Comics, foram convidados a contribuir com a nova Action Comics (sob a chefia de Jack Liebowitz, já longe dos calotes de Wheeler-Nicholson). Inicialmente, os jovens não planejavam apresentar Superman, ainda porque já tinham outra pessoa em vista para apresentar o material para jornais: Max Gaines, que seria um nome reconhecido por seu trabalho com a EC Comics. Mas Gaines não tinha boas notícias e, novamente, a investida não vingou. Ironicamente, Gaines sugeriu apresentar o material para Liebowitz que, surpresa, aceitou o material. Montaram os quadros com a nova história do novo Superman, originalmente esquematizada para serem várias tiras, de forma a se encaixar em um formato de revista em quadrinhos. O único senão é que, até mesmo devido ao cansaço da dupla em bater a cabeça para publicar seu personagem, acabaram cedendo os direitos autorais logo de cara. Em matéria de arrependimento isso não ficaria claro tão cedo, apesar da revista Action Comics se mostrar um sucesso de vendas e, posteriormente, Superman mostrar-se o detalhe que explicasse esse sucesso. O próprio Leibowitz registrou o logo do peito do personagem no mesmo ano de sua estreia. O contrato assinado por Siegel e Shuster dizia algo como:

"Eu, abaixo assinado, artista e autor, trabalho na tira intitulada SUPERMAN. Tendo em consideração os $ 130,00 que me foram pagos, venho por meio deste, transferir a venda da tira anexada, de boa vontade, o uso exclusivo de personagens e histórias nela contida para os cessionarios, e concordo serem sua propriedade exclusiva, bem como concordo não empregar os ditos personagens ou seus nomes sob quaisquer outros nomes a qualquer tempo, para qualquer outra empresa ou corporação, ou permitir o uso dos mesmos ou outras partes sem obter o consentimento por escrito. Dou-lhe direito exclusivo da utilização dos personagens e histórias, exclusivamente. Recebo a soma acima em dinheiro.
(03 de março de 1938)"

Já na primeira história do Superman, publicada em 18 de Abril de 1938 (com data de capa em Junho), conhecemos também a personagem coadjuvante mais importante em sua mitologia, a repórter Lois Lane. A personagem foi baseada por Shuster na modelo Joanne Carter, contratada justamente pelo desenhista para servir de base para a criação da personagem. Joanne, vejam só, acabou se casando com o amigo, Jerry Siegel. Tudo em família... O fato de Lois sempre ser enganada por Clark quanto a sua identidade secreta (Clark força ao se mostrar um covarde, enquanto como Superman meio que a esnoba... apesar de também ter sentimentos por ela) era um dos charmes da série de história ao qual Jerry Siegel não abria a mão. Até há histórias em que ela chega perto da verdade, mas o escritor preferia manter esse "jogo sedutor" insolúvel como clima da série.

Esse primeiro Superman trazia diferenças, conceituais inclusive, que ainda seriam desenvolvidas com o passar dos tempos. A revista não perde muito tempo em desenvolver sua origem, dando apenas uma página para dar uma pincelada nesse item e dar uma ideia de seus incríveis poderes (há até uma nota de curiosidade, mostrando que existem animais no mundo real com superpoderes, como as formigas, que conseguem levantar pesos maiores que o seu próprio, e os gafanhotos, que conseguem saltar a distância proporcional a quarteirões, quando comparados a humanos). Apesar do herói já se apresentar em plena ação em favor de motivações nobres (provar a inocência de uma mulher condenada à morte, dar um safanão em um homem que espanca a esposa, capturar um lobista que propaga a corrupção com um senador americano), seu modo de agir é um tanto quanto... inconsequente. Sádico até. Ele mostra se divertir ao invadir propriedades, jogar pessoas contra paredes ou assustá-las carregando-as correndo por fios elétricos. A icônica cena do carro levantado e sendo esmagado por ele na capa, na verdade é uma parte da história, onde ele pega o carro de criminosos que raptaram Lois Lane, o levanta e chacoalha, jogando todos pra fora (inclusive Lois Lane, que ainda estava dentro do carro! Dane-se a gentileza e delicadeza!) O personagem não voa, mas utiliza sua superforça para dar grandes saltos que praticamente tem efeito parecido. E é bem interessante como é criada a personalidade forçadamente acovardada de Clark Kent, sendo tão bem "interpretada" que faz com que o leitor realmente sinta raiva do personagem por agir daquela forma, mesmo sabendo da verdade (que dirá da Lois, que não sabe...). Essa primeira história, apesar de muitos acontecimentos, teria continuação no próximo número.

Apesar de apresentado como atração principal, uma vez que se tornou capa da primeira edição, Superman não era a única atração da revista, já que se tratava de uma antologia de histórias, como as publicações anteriores da editora. Juntamente com Superman, eram encontradas histórias do mago Zatara (por Fred Guardineer e futuro pai de Zatanna, enfrentando uma espécie de pirata de trens chamada Tigresa; o personagem era tão parecido com Mandrake que, no lugar do Lothar, tinha um indiano chamado Tong como parceiro); o cowboy Tex Thompson (que futuramente se chamaria Mr. America e Americommando; escrito por Ken Fitch, desenhado por Bernard Baily); Chuck Dawson (por Homer Fleming), um cowboy ao estilo rebelde contra todos; um conto de aventura marítima escrita pelo Capitão Frank Thomas; a série de humor de Estica e Espicha, bem ao estilo de filmes mudos (em relação ao ritmo frenético, pois há balões de fala; escrita e desenhada por Russell Cole); aventuras de Marco Polo (por Sven Elven); nosso conhecido esportista Pep Morgan (escrito por Gardner Fox e desenhado por Fred Guardineer), migrado para a nova revista e atacando no mundo do boxe; Scoop Scanlon, escrito por Will Ely (de Mr Chang), repórter que atua tanto nas investigações que praticamente não dá pra dizer que é imparcial em seu trabalho.

Superman pode não ser considerado por alguns como o primeiro super-herói (O Fantasma e Mandrake, por exemplo, anteriores ao seu surgimento, são provas disso), mas assim é lembrado por ser responsável por popularizar o gênero.

Por ser uma revista de importância histórica, Action Comics foi publicada diversas vezes no Brasil, no que diz respeito a sua principal atração. A história do Superman foi serializada na revista A Gazetinha entre os números 451 e 463, entre 1938 e 1939, pela A Gazeta. Foi apresentada na íntegra (a história do Superman) no Álbum da Gazetinha 02, em 1939, ainda pela A Gazeta. A edição integral, com todas as histórias, foi publicada no Almanaque Nostalgia, em 1975, pela Ebal. A origem do Superman foi apresentada na revista Origens dos Heróis 01, em 1975, pela Ebal. Um "fac-símile" com a história do herói (apesar de ser da revista Action Comics) em 1994, pela Editora Abril. No encadernado Superman Crônicas 01, em 2007, pela Panini. No especial Coleção DC 75 Anos, em 2010, pela Panini. Na terceira e oitava edições da DC Comics - Coleção de Graphic Novels, em 2014 e 2015, pela Eaglemoss. E um Fac-Símile da edição em 2015, pela Eaglemoss.

Você encontra a versão pela DC Comics - Coleção de Graphic Novels na Sala de Perigo, a loja do blog Âmago: https://saladeperigo.loja2.com.br/search_store?q=GB06

Também encontra através de nosso espaço no Mercado Livre: https://lista.mercadolivre.com.br/gb06_CustId_153701103#D[A:gb06,SI:153701103]

Nenhum comentário: