quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O DIÁRIO DE STEVE ROGERS - Parte 759

Arte de capa por Steve Epting

Arte de capa alternativa por Butch Guice

Arte de capa alternativa por Pascal Garcin
 - Captain America n° 19 (Dezembro de 2012)

* "The Final Issue of Captain America", história escrita por Ed Brubaker, desenhada por Steve Epting, colorizada por Frank D'Armata, editada originalmente por Tom Brevoort

Publicada no Brasil, pela Editora Panini, na revista Capitão América & Os Vingadores Secretos n° 27, letreirizada por Gisele Tavares, traduzida por Fernando Lopes e Jotapê Martins e editado por Paulo França

Hospital Secreto da SHIELD. Localização não divulgada.

Steve é informado que seu amigo está respondendo hoje. Aparentemente está melhorando. Apesar da boa notícia, o paciente não é exatamente seu amigo. Ao entrar no quarto, ele pergunta se o paciente pode ouvi-lo. Se sequer se lembra dele. Ele diz que sente muito... pelo que aconteceu.

Seis semanas atrás, o Capitão América abordou homens mascarados que aterrorizavam trens cheios de passageiros. Enfrentá-los foi como um reflexo condicionado e automático. Isso seguido pela fúria que o herói sente na ocasião. A fúria, como bem sabe, pode fazer com que pessoas cometam erros. Ao jogar um dos criminosos na via abaixo, o mesmo cai sobre um carro em movimento, fazendo com que o motorista perca a direção e quase atropele uma garota... caso o herói não a tivesse tirado do caminho. O Capitão não esperava ficar furioso com tanta frequência. Mas, neste mundo moderno, quase tudo o irrita. O que Steve não conseguia entender era que... isso também acontecia com ele às vezes. Por isso, antes que o criminoso fosse espancado, Steve consegue deter o Capitão América. Steve tinha ciência de que era apenas um homem fora de seu tempo... não fora de si. Ainda furioso, o Capitão América nem percebe que corre em direção a um caminhão que se aproxima velozmente pela via expressa.

Hoje, Steve visita William Burnside, o Capitão América dos anos 50. Os médicos disseram que ele estava melhorando. Supersoldados sempre melhoram. Steve está ali apenas para conversar com Burnside, mesmo não tendo certeza se ele conseguia entendê-lo. Burnside era o reflexo sombrio de Steve... e seu maior fã. É estranho que nunca tenham conversado. William não conhece Steve, apenas o mito... a parte que o faz querer ser o Capitão América.

Steve nunca quis ser um herói... ele só não queria sentir medo. Ele cresceu desse jeito em meio à Depressão... especialmente após a morte de seu pai. Ele era uma criança frágil, doente... apanhava constantemente. E a cada osso quebrado, ou olho roxo, sabia que sua mãe ficava decepcionada. É claro que tinha medo dos valentões que o esperavam... mas seu verdadeiro medo era chegar em casa e ela não estar lá. Steve sabia que aquilo era irracional... Ela era uma ótima mãe... Mas era com se sentia naquela época. Como se tudo pudesse desmoronar a qualquer momento. Possivelmente foi isso que o moldou... como o mundo parecia tão injusto... desonesto... Por isso tentou se alistar muitas e muitas vezes antes mesmo de estarem em guerra. Porque ele queria esmurrar Hitler no queixo... Ainda assim, nunca pensou que realmente faria isso. E não sabia o que representaria quando o fez.

A SHIELD encontrou cópias da revista em quadrinhos Captain America n° 1, de 1941, no porão da casa da família de Burnside. Algo que vale muito como edição de colecionador. Steve lembra que ele e Bucky não gostavam muito dessas revistas durante a Segunda Guerra. Bucky achava que era retratado como um "parceiro mirim estúpido" com apenas oito anos de idade (apesar de ser uma revista dirigida a crianças para manter o moral elevado). É claro que Bucky sempre odiou o lado propaganda do trabalho... não que Steve ficasse entusiasmado com aquilo. Mas ele não tinha ideia da importância que vestir o uniforme teria no futuro. Não apenas para ele, mas para todo mundo. Aquelas histórias em quadrinhos geraram controvérsia na época em que foram publicadas. Os americanos nazistas, os descendentes, não gostavam muito de ver o líder deles transformado em saco de pancadas. Os dois homens que fizeram a revista, Simon e Kirby, receberam até ameaças de morte.

Mas depois de Pearl Harbor, depois de entrarem na guerra, tudo mudou... Foi então que percebeu que aquilo era mais que simples propaganda... E que todos aqueles soldados estavam olhando para ele... procurando esperança... naqueles dias tão desesperados. E aquilo o assustou mais do que qualquer coisa em sua vida. Porque nunca havia sido um líder. Ele deveria ter sido o primeiro de todo um exército de supersoldados. Mesmo quando estava tomando aquela fórmula, jamais imaginou que iria para a linha de frente. Não queria vestir a bandeira e carregar aquele fardo... Só queria fazer a coisa certa. E, de repente, havia apenas uma coisa certa a se fazer... uma missão. E ela ficava maior a cada dia. Tentava apenas não fracassar. Tentava ser o melhor que pudesse. Porque muitas pessoas estavam contando com ele. E ele sabia como era deixar alguém decepcionado.

Se Steve tivesse ficado consciente durante o seu congelamento... teria percebido que a missão não terminaria com ele. Mas os Estados Unidos estavam em guerra e ele nunca pensava muito além daquilo... Nunca pensou que o símbolo precisava viver. E nunca pensou que o seu fardo seria carregado por outros. Ele leu sobre o tempo de Jeff Mace e William Naslund como Capitão América quando foi despertado... mas sobre Burnside foi outra história... um segredo que ele precisou arrancar do governo. E quando ele o fez, percebeu porque não queriam que soubesse.

Burnside tinha perdido tudo tentando ser o Capitão América. Tentando ser Steve Rogers. Quando ficaram cara a cara, a situação mexeu com Steve: ver o efeito que sua existência teve sobre outra pessoa. Ver Burnside desabar quando percebeu que não estava lutando com um substituto. Mas o Steve Rogers original. Pela primeira vez, Steve viu o seu próprio legado distorcido. Soube que não podia controlar o que as pessoas pensavam sobre ele. A missão só ficava cada vez maior. Até que ela ficou grande demais... e ele chegou a pensar que a resposta para um presidente corrupto... era se afastar. Não da luta, mas do símbolo.

Steve pensou que o governo o substituiria por alguém treinado... mas eles nem tiveram chance... antes que um civil inocente tentasse tomar o seu lugar. Até hoje, carrega a imensurável culpa pela morte daquele homem. Com o tempo, ele compreendeu o que deveria ter aprendido desde que pegou aquele escudo. Não se trata de uma missão particular... a missão segue com o símbolo. E se não vestisse aquele uniforme, então outro alguém o faria. Outro alguém sempre irá... porque essa é a pior parte de ser o Capitão América. Compreender que a missão é grande demais... e que ela jamais termina. 

A missão terminou para Burnside. Secretamente, eles o enterraram no Cemitério Nacional Arlington, com todas as honras... Steve discursou sobre as coisas que ele desejava e pelas quais lutou antes que o soro defeituoso do supersoldado afetasse sua mente. Mas chegou a hora de Burnside descansar. Ele serviu. Fez o seu melhor. E Steve veio visitá-lo, para deixar claro que a missão de Burnside está encerrada.

Burnside seguirá para outro hospital para continuar seu tratamento... onde farão o melhor para restaurar sua mente... e lhe dar uma vida nova com nome novo. Ele não precisa mais ser o Capitão América. Steve lhe deve gratidão eterna. Ele mesmo carregará esse fardo a partir de agora... e até quando ele puder.

A+:

* A chamada "Marvel NOW" (chamada no Brasil de Nova Marvel) foi uma proposta onde havia mudanças drásticas nas equipes criativas das revistas Marvel. Drásticas a ponto de se iniciar a numeração de cada um dos títulos, com o intento de ser uma espécie de marco zero para novos leitores e um ponto de renovação para os demais. "Renovação" sem ser exatamente uma reformulação (em comparação ao que foi feito com a DC Comics e seus Novos 52). 

Alguns casos dão a impressão dessa mudança ter sido feita tão abruptamente que os responsáveis pelos títulos demonstram não ter aceitado bem tal jogada. Brubaker foi um dos escritores que demonstrou não estar muito a vontade com essa alteração, a ponto de seu último arco contar com uma ajuda (seria um apoio moral?) de outro escritor: Cullen Bunn. Esse clima, na verdade, já vinha sendo mostrado desde o inicio dessa nova revista do Capitão, já que, além de saber do cronograma da editora em relação a suas mudanças, também foi tentada uma mudança com desenhistas mais badalados, porém, não exatamente dentro do estilo proposto pelo escritor.

Por outro lado, também há o fato de certo cansaço do escritor com o título. Foi quase uma década escrevendo o Capitão América, uma marca louvável. Isso não impediu que Brubaker fizesse uma despedida digna do personagem, algo que contou com a presença do desenhista Steve Epting (seu principal parceiro com o personagem) nas capas das últimas edições. Fica marcado como "A Era Brubaker" para o Capitão América, sendo uma das que mais exploraram todo seu potencial e mitologia.

* No arco final (que não é exatamente a edição final desse volume) o escritor Cullen Bunn se junta a Ed Brubaker para apresentar uma história que é bem diferente do clima de espionagem construído pelo segundo. Na época, com o evento conhecido como Marvel Now, onde as equipes criativas eram trocadas e outras novas assumiam títulos que até então não foram por elas trabalhadas, acreditava-se que Bunn assumiria os roteiros da nova revista do Capitão América. Mas isso não aconteceu.

* A emissora que apresenta o programa de Reed Braxton, a MNN, é uma clara crítica à emissora CNN da vida real. No início, chegou a ser chamada de GNN, mas a grafia foi alterada para não deixar a intenção (por mais óbvia que fosse) tão explícita.

Nenhum comentário: