domingo, 16 de fevereiro de 2014

O DIÁRIO DE STEVE ROGERS - Parte 595

 - Captain America 7 (Julho de 2005)

* "The Lonesome Death of Jack Monroe", história escrita por Ed Brubaker, desenhada por John Paul Leon

Publicada no Brasil, pela Editora Panini, na revista Os Poderosos Vingadores n° 31 ("A Solitária Morte de Jack Monroe"); no especial Marvel Deluxe: Capitão América n° 1; e pela editora Salvat, no fascículo n° 44 da Coleção Graphic Novels Marvel

A doutora Jane Foster tem más notícias para Jack Monroe. Os exames de sangue mostram que a variante do soro do supersoldado que ele usou está se deteriorando. Como resultado, seu sistema imunológico ficou maluco.

"Então, depois de todo o esforço pra arranjar alguém com experiência meta-humana capaz de me ajudar, a Dra. Jane Foster me diz, na lata, que vou morrer. Ela só não sabe direito quando. Mas sabe que não vai ser nada agradável. Primeiro, à medida que o soro do supersoldado for sumindo, vou continuar a perder a força e o vigor extras que tenho. Depois, vou começar a passar mal. E não vai ser pouca coisa, porque meu sistema imunológico vai ter quase desaparecido. Ah, sim, é muito provável que eu comece a perder o juízo. Só pra ficar mais divertido. Tem a ver com o efeito do soro original sobre mim. Sei lá... depois de um tempo, não ouvi mais o que ela disse."

"A doutora recomendou que eu me despedisse de amigos e familiares, que pusesse minhas coisas em ordem. Mas será que eu tenho o que organizar? Será que tenho amigos e familiares? O único cara que encaro como amigo talvez seja o Capitão... mas nossa amizade é um lance muito complicado... Capitão América... Steve Rogers. Mesmo hoje, quando penso nele, lembro na hora do MEU Steve Rogers... o professor que conheci no início dos anos 50. Um cara que, de tanto idolatrar o herói, localizou a fórmula que criou o Capitão América e reinventou o composto. Um sujeito que até mudou de nome e depois de rosto pra ficar parecido com o verdadeiro Steve Rogers."

"Como é estranho pensar naqueles dias... a Coréia, os primórdios da Guerra Fria, as audiências da Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado, transmitidas pelo rádio e pela televisão. E lá estávamos nós, tentando ser os novos Capitão América e Bucky. Sem perceber que estávamos enlouquecendo devagar. Que o soro em nossas veias era adulterado. Ele nos fez ver inimigos onde não havia. Acho que devo agradecer por termos sido postos e animação suspensa até que encontrassem uma cura, e não trancafiados numa prisão militar secreta."

"Às vezes, eu me pergunto: e se aquele extrema-direita não tivesse nos libertado há... Nossa, já faz oito anos? Será que ainda estaríamos em algum depósito do governo, às espera da cura? Não que minha vida tenha sido um passeio no parque desde que recebi a suposta "cura", mas teve seus bons momentos. Afinal, eu atuei lado a lado com o verdadeiro Capitão. E pude conhecer o verdadeiro Steve Rogers. Ele me ajudou a deixar de ser um parceiro e me tornar alguém independente. Até me deu uma de suas antigas identidades secretas, pra que ela se tornasse minha... o Nômade. Mas esse é o grande problema, não é? Eu nunca fui independente nem tive identidade própria. É triste ter de admitir, mas o que foi Jack Monroe senão a sombra de outros homens?"

"Quando moleque, tentei assumir o lugar de Bucky, um herói de guerra, um cara que viu mais combates do que vinte soldados juntos. O que me deu esse direito? O fato de me parecer com ele? Anos depois, me vi na ativa de novo, perto do fim do século 20, como o segundo Nômade. Como se eu pudesse seguir os passos do Capitão América... Pô, eu não consegui ser nem o primeiro Carrasco. Encare os fatos, Jack... você é um zero à esquerda. E sempre tentou preencher o vazio de ser quem realmente é brincando de ser outras pessoas. Como um menino que nunca cresceu. Mas agora chegou o momento de crescer. É hora de dizer adeus aos meus amigos e aos meus... familiares?"

"Não vou decidir. Já decidi. Posso sentir minha força diminuir, mas não estou ficando doente. Talvez eu nunca fique. Vai ver a Dra. Foster está enganada. Talvez eu seja mais durão do que nós dois supúnhamos. Tudo que sei é que vou continuar forte o bastante para encontrá-la. Minha filha adotiva... Bucky. Não vou deixar este mundo até saber se ela está bem."

Com esse objetivo, Jack veste novamente o uniforme de Nômade e combate criminosos. Porém, em uma de suas empreitadas contra o crime, ele sente seu peito doer... e começa a tossir sangue.

"Eu digo a mim mesmo que não é nada. Só um pouco de secreção nos pulmões... um resfriado bravo. Eu vou ficar bem. Tomo um bocado de vitaminas. Vou me sentir melhor. Por volta do segundo dia de cama, entendo o que a Dra. Foster quis dizer com perder o juízo."

Jack delira. Em seu espelho, ele vê o rosto de Bucky. Ele quebra o espelho com um soco "mas o rosto dele apenas gargalha do outro lado do espelho".

"Depois disso, a coisa vem e volta, como um arranhão no meu cérebro... tipo uma estática. Eu começo a me esquecer das coisas, a ter dificuldades em saber o que é real ou não. É muito pior do que ficar doente. Estou enlouquecendo e sei disso. Dá pra ver que acontece, mas não consigo fazer nada pra impedir. A Dra. Foster quer que eu vá me tratar. Posso ser um perigo pra mim e pros outros. Mas eu a convenço a me dar mais um tempo. Mostro a ela que estou bem... que tenho coisas importantes a fazer. Assuntos a concluir. Acho que a convenci, pelo menos. Na verdade, não lembro como terminou nossa última conversa."

"Não me recordo de nada até uma semana atrás, quando acordei de um sonho estranho. No sonho, estou em contato com o Príncipe Submarino e o Tocha Humana, a fim de trocar... alguma coisa. O quê? Da janela, Bucky gargalha de mim por eu ter sonhado com os amigos dele, os Invasores. Sonhado com sua vida em vez da minha. No entanto, em meio à confusão na minha mente, descolo uma cópia dos registros da adoção da minha filha. Não faço ideia de onde veio."

Jack vai até Pittsburgh e vê, de longe, a garota que criou por um tempo e chamou, também, de Bucky. Ele, vendo que a menina encontrou uma família e está feliz, prefere não se aproximar.

"Agora o nome dela é Júlia. Júlia Winters. Ela parece muito feliz, e está sendo criada por pais que evidentemente a amam, que podem lhe dar coisas que eu nunca pude. Como uma vida normal. Estabilidade. Estou feliz por ela. No duro. E penso em voltar pra Nova York, como a Dra. Foster pediu, mas mudo de ideia quando ouço alguma coisa no bar."

Dois homens na mesa ao lado conversam e um deles revela que trabalha ao lado do estacionamento do jardim da infância. O que mais chama a atenção de Jack é quando o homem cita que "a gurizada se liga mesmo... dá a maior grana..."

"Há um traficante da pesada operando nesta cidade, bem aqui neste bar. Ele vende drogas pras crianças na escola de Júlia. Ela está no pré-primário e já têm canalhas querendo ferrar com sua vida. A menina pode ter novos pais... mas ainda precisa de proteção... Ao que parece, ainda resta uma última missão pro Nômade realizar. E não consigo imaginar um jeito melhor de passar os últimos meses da minha vida do que prendendo traficantes. Protegendo minha filha. Mantendo sua inocência a salvo pelo máximo de tempo que puder."

"Já fiz isso antes. Enfrentar o crime organizado... a distribuição de drogas. A gente começa pelos peixes pequenos e vai subindo até o topo do esquema. É sempre assim. Mesmo no meu estado, eu dou conta do recado. Até dormindo consigo eliminar capangas como esses... abutres que atacam criancinhas... Pra destruir essa corja, eu posso manter a sanidade um pouco mais. Sei que posso. E, por um tempo, é o que parece."

"Eu investigo por alguns meses... atacando rápido, quando e onde eles menos esperam. Mas começo a perder tempo de novo, acordando em meu quarto de motel sem ter ideia de como cheguei lá... despertando ao lado de mulheres de quem nem me recordo. A dúvida começa a me atormentar. Posso sentir tudo acontecendo, como antes. É como se duas partes da minha mente estivessem em guerra. A mente racional e a que está tentando matá-la, o lado insano. Às vezes, logo que acordo, tenho uma visão febril do conflito. Na imagem, tem outro eu crescendo na minha cabeça... Como um tumor, mas com eu rosto... ou será o de Bucky? Seja lá o que for, posso sentir, naquele instante, que cresce dentro de mim, preenchendo minha pele, enxergando pelos meus olhos. Eu sei o que a coisa quer... tomar o meu lugar. Meu sósia maluco está crescendo no meu cérebro."

"Será que o impostor sou eu: Afinal, já não fui tanta gente diferente? Talvez nós todos sejamos diferentes o tempo todo... talvez nossa identidade não passe de fragmentos de tempo e de recordações... Talvez o tempo todo a gente mude de vida, de direção, de penteado e de roupas. Outra parte de nós cresce pra tomar o nosso lugar. Ela rasga o que fomos como uma pele de cobra. Ou talvez cada ideia maluca na minha cabeça venha de um impostor canceroso, que me perseguiu a vida inteira. Essa é a pior parte de saber que se está perdendo o juízo... Depois de um tempo, começa a fazer sentido. A parecer inevitável. Eu tenho de aguentar firme... por ela. Tenho que manter o miserável dentro da cabeça. Isso eu consigo fazer."

"Eu provavelmente não deveria beber tanto, eu sei... mas meus comprimidos acabaram faz tempo e o álcool é o único remédio que me resta. E, entre os meus apagões, eu tento me inteirar da situação. Tento me aproximar do traficante. Ele não aparece muito por aqui, mas já seu nome... Gunnar. Só preciso descobrir onde ele guarda a droga e depois prendo o miserável... mas é mais fácil falar do que..."

Pela TV do bar, Jack vê o noticiário onde diz que os Vingadores (após o ataque da Feiticeira Escarlate) decidiram encerrar suas atividades.

"O Capitão. Eu devia telefonar pra ele. O cara deve estar arrasado. Os Vingadores... eram praticamente a família dele... Eu devia..."

"Então, de algum modo, já se passaram três meses. Perdi três meses inteiros. Onde eles foram parar? O que estou fazendo? Detonando outra boca do tráfico? É isso? Claro! Só pode ser. Certo, disso eu sei cuidar. No entanto, alguma coisa está diferente. Minha força e agilidade quase sumiram. Mesmo assim, sou mais rápido do que esses manés. Mas não é só isso... Minha cabeça está lúcida. A estática desaparecendo. Seja lá o que aconteceu nos últimos três meses, eu voltei ao controle. Só tem uma pessoa dentro da minha cabeça agora. No fim, o traficante abre o jogo e, pra variar, a informação é quente. Gunnar vai encontrar seu contato amanhã no boteco e depois vai trazer a grande remessa. As peças estão e encaixando... finalmente..."

"E, no dia seguinte, eu aguardo. Estou prestes a terminar tudo. Mas bem que o canalha podia aparecer... Onde ele está? Deu algo errado. O cara já devia ter chegado. Espere... Estou suando. Por que estou tão nervoso: Bebi demais? Não, não pode ser. Mas alguma coisa tá esquisita. A cerveja ficou espessa, como se fosse xarope ou... O Capitão de novo na TV? Será que isso é real? O que está acontecendo comigo? Tudo parece tão estranho... tão errado. De repente, é como se eu não fosse a pessoa dentro de mim. me vejo discutindo com o balconista sobre alguma coisa. Me assisto sair, irritado. Não está certo. A Dra Foster não disse que ia ser assim... que eu ia ficar preso dentro da minha cabeça. Então, penso na minha visão, no eu crescendo dentro de mim... E logo que alguém me chama, percebo o que aconteceu... desde o começo, eu estava certo... Eu tomei o lugar dele antes e agora... ele cresceu dentro de mim. Rasgou minha pele e veio tomar o meu lugar... Tudo faz sentido. Se ao menos eu tivesse terminado meu..."

E a última coisa que Jack Monroe vê, quando está saindo do bar,... é Bucky, em seu velho uniforme... ou o que sua mente delirante quer ver... e depois... um disparo lhe tira a vida. O homem que assassina Jack Monroe, simplesmente joga seu corpo na porta malas e parte. Jack morreu imaginando estar ficando mais vigoroso conforme enfrentava mais traficantes. No entanto, isso era uma falsa impressão... da mesma forma que as pessoas que espancava não eram traficantes, mas inocentes que sua mente não deixava ver. 

Logo que o carro com o corpo de Jack deixa o bar, Gunnar chega a seu caminhão de sorvetes. Afinal, ele tem que pagar as contas e as crianças adoram sorvete. Ele percebeu isso quando começou a trabalhar ao lado do jardim da infância. "A gurizada se liga mesmo".
A+:

* Pequeno (e trágico) interlúdio antes de continuar a saga do Soldado Invernal.

* Bem... era natural que, com a fascinação do escritor Ed Brubaker pelo personagem Bucky, a versão "genérica" do herói fosse "limada" da existência. Jack Monroe surgiu como o parceiro do Capitão América que atuou durante os anos 50 (e que não era Steve Rogers). Sendo realocado no universo Marvel com a mente perturbada pelo soro do supersoldado, que foi administrado incorretamente. Com a ajuda de Steve, conseguiu se firmar por um tempo como seu parceiro e, depois, sentindo-se ainda deslocado, teve suas aventuras próprias (inclusive sua própria revista, chamada Nômade). Nessa "queima de arquivo", escrita por Brubaker, é possível notar que os problemas mentais do personagem tiveram uma melhora apenas temporária. 

* A Dra. Jane Foster é uma personagem conhecida de longa data dos fãs de quadrinhos. Na verdade já foi par romântico de Thor (e motivo de várias brigas do deus do trovão com seu pai), quando trabalhava para a identidade secreta do herói, o doutor Donald Blake.

* Durante o período em que Jack Monroe atuou como Nômade, resgatou e cuidou de uma garotinha a qual chamou de Bucky, em homenagem ao antigo parceiro do Capitão América.

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